Saturday, August 05, 2017

Ruidosos silêncios

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O silêncio só existe em contraste com o barulho. Se não há barulho a contrastar, é ele próprio barulhento. E então apetece o ruído para ele ser menos ruidoso.

Conta-Corrente 3, Vergílio Ferreira

Há uma certa arte em saber dar valor ao silêncio. Se o absoluto silêncio, ou melhor, se a ausência de som nos consegue levar à loucura em poucos minutos, o mesmo também pode acontecer em relação ao ruído. A verdade é que nos acostumamos tanto ao ruído da cidade que a sua ausência torna-se insuportável.

Nunca senti o meu quarto como um espaço silencioso. Nem mesmo naquelas longas noites onde, incapaz de adormecer, procurava por um canto para ouvir música no meu velho leitor de CDs. A partir de uma certa hora a passagem do ocasional carro nada mais era que um acontecimento esporádico e, talvez por isso, ensurdecedor. Mas muitas eram as noites onde nem um único motor se atrevia a dar voz a um imperceptível anoitecer.

O comboio já era outra história. Os últimos urbanos e o inter-cidades faziam-se ouvir, ao fundo, em fugazes passagens, até perto da uma da manhã. A partir daí só sobrava um, o de cargas das duas e meia. Lá ao fundo, nos carris, a pressão de uma dezena de vagões, ressoava pela noite dentro, todas as noites, à mesma hora. Se algum dia se atrasou, estou certo que o meu cérebro reproduzia o seu som, como um qualquer alarme memorizado na experiência de incontáveis noites raramente distintas uma da outra.

Quando comecei a trocar o meu quarto por cinco dias a cem ou duzentos quilómetros de distância, a primeira falta que se fez notar foi esse som. Não o silêncio de uma rua pouco movimentada, isso até há um ano, sempre tive. Mas sim, o alarme de um comboio que, ainda hoje, por vezes juro ser capaz de ouvir. Lá ao longe, numa curva distante, a seguir para sul com toda a sua velocidade. 

Tão estranho como errático, era o pedalar daquela bicicleta. Também ela pontual, embora não pedalasse todos os dias. Quando o fazia era tarde. Sempre para lá da uma da manhã. Alguém passava de bicicleta ora para lá, ora para cá, no limite das suas capacidades, com pressa para algures chegar. Creio ter-me cruzado com ela, em uma ou outra noite marcada por um tardio regresso a casa, contudo, como aquele interruptor que não sabemos para que serve, não passava de uma visão no canto do olho. Sempre ali, constante, mas impossível de discernir do padrão natural das ruas que tomamos por garantidas.

Não, o meu quarto não é ruidoso. Estes sons pontuais apenas entretiam o tédio das longas noites em que o sono tardava em chegar. Na Covilhã tinha apenas o silêncio. O silêncio e uma cascata constante, algumas centenas de metros para baixo do meu andar. A água gritava baixinho por entre as rochas, mais calma que uma chuva de mediana natureza. Já em Coimbra era apenas eu. O passageiro trânsito nocturno e umas largas centenas de noites estreladas. Apenas encontrava desconforto nas camas impropriamente montadas e no ocasional irrequieto vizinho.

Em Lisboa aprendi a dar valor ao silêncio. Para lá da minha porta está uma estrada em constante reboliço. Não importa a hora da noite ou o dia da semana. O trânsito é constante, rápido e imparável. Aliado a isto, o meu vizinho caminha pela casa, revoltado com as suas portas, em voz alta ao telefone até à uma da manhã, quando o não faz até mais tarde.

Como criaturas de hábitos que somos, aprendemos a viver com o ruído. O silêncio do meu quarto, quando enfim regresso a casa, é hoje ensurdecedor. Ir a casa é sinónimo de mil e uma tarefas que por duas ou três semanas sou forçado a adiar. Talvez por isso durma pouco. Tarde me deito e ainda mais cedo desperto. Mas o silêncio tem o seu papel. Adoro matar saudades daquela misteriosa bicicleta nocturna, e do comboio de cargas longínquo, mas há algo nas restantes horas da noite que me impede de dormir descansado. 

Não é a falta de uma cascata, ou de vizinhos incómodos, mas sim a ausência de som. O fluxo constante de veículos. A azáfama interminável de uma cidade em constante alvoroço. 

Nenhuma destas características é algo que me atraia. Troco o ruído pelo silêncio na primeira oportunidade. Contudo, temo. Temo que o meu organismo já esteja adaptado. Temo que dormir sem esta constante barulheira que mesmo agora teima em não ceder, seja já algo tão natural como o imperceptível som de um computador a processar. 

Passado um ano, já consigo adormecer sem grandes problemas, especialmente nas semanas em que o meu vizinho se marca como ausente. Posso até mesmo deixar a janela aberta nos dias de maior calor sem que isto afecte o meu sono. É um hábito necessário que preferia não ter. Esta teimosia de aceitar o ruído como uma eventualidade natural.

Quero reabituar-me ao silêncio. Descansar durante sossegadas noites. Desabituar-me deste ruído. Silenciar a constante torrente de carros e deixar que esta se perca no horizonte.

Quero reabituar-me ao silêncio.

Tuesday, July 11, 2017

Cento e quarenta caracteres

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Cento e quarenta caracteres. Todos os dias escrevo cento e quarenta caracteres. Pensamentos erráticos. Comentários a um evento. Citações de momentos inócuos. Opiniões controversas. Simples partilhas. Pequenas considerações. Encadeadas em sucessões lógicas mais dignas de outro espaço. Um que as não limitasse a cento e quarenta caracteres.

Em 2008 quando comecei a aventurar-me pela microblogosfera que hoje é o twitter, costumava comparar o meu número de publicações, na altura ainda longe de serem conhecidas como tweets, com aquelas que tinha feito até então no meu blogue. Devo ter demorado ainda uns dois ou três meses, mas cedo ultrapassei um número que achava difícil de alcançar. Hoje já lhes perdi a conta. Um breve vislumbre do meu perfil diz-me que são mais de vinte e sete mil.

Vinte e sete mil tweets. Quão ingénuo da minha parte era comparar tão volumoso número aos trezentos e vinte e sete artigos publicados neste blogue. Quantos romances não podiam ser escritos em vinte e sete mil tweets? Quantos poemas. Quantos contos. Quantas crónicas. Quantas críticas. Momentos. Palavras. Pensamentos. Notas. Enfim, um finito número de incontável material que podia já hoje ter publicado, tivessem esses vinte e sete mil tweets, a energia e a lógica necessária para se conduzirem por entre os diversos teclados para papéis capazes de lhes darem forma e um propósito.

Há meses que não escrevo. Não sei como aconteceu. Não tenho um motivo ou uma razão. É apenas algo empiricamente observável pela ausência de publicações neste ou em qualquer outro espaço. Há um ano comecei por reduzir a frequência com que o fazia. Desisti da minha regra dos trinta artigos anuais e mantive-me apenas fiel à habitual publicação mensal. Em Janeiro, até essa fui incapaz de manter.

Podia culpar o excesso de trabalho. A falta de tempo. As viagens. Enfim. Estaria a mentir. Tempo é algo que não me escasseia. Por mais ocupado que esteja numa semana, há sempre outra que compensa. Por mais tempo que passe dentro ou fora de Lisboa, há sempre uma hora vazia, facilmente preenchida por um fugaz dedilhar de teclado.

Não. A culpa não é do tempo. Nem tão pouco da sua falta. A culpa morre solitária em mim. Falta-me motivação. Razão. Inspiração. Uma voz. Falta-me aquele algo que hoje me faz escrever. Falta-me vontade.

Em Novembro, após cinco anos de inactividade dessa particular aptidão, voltei a escrever notícias. Cinco por semana. Todas as semanas. Recordo-me do pânico de uma mente enferrujada incapaz de se lembrar de algo que em tempos era tão natural como qualquer outra minúcia do dia-a-dia.

As primeiras semanas foram exigentes. Não conseguia encontrar as palavras. Os meus dedos ficavam perros e a minha mente vazia. Mesmo com toda a informação necessária à minha frente, era incapaz de a reconstruir em uma narrativa coerente e informativa. Deambulava entre opiniões e vozes de um repórter presente. Sentia falta de um rumo. De uma crítica. De um empurrão na direcção correcta.

Ler o trabalho de outros colegas em situações semelhantes apenas tinha o efeito oposto ao esperado. Em vez de inspirar, desesperava. Mergulhava fundo em busca de um talento que se escapava por entre as ondas de uma mente em constante reboliço.

As primeiras tentativas deploráveis de encontrar algo substancial não passaram de embaraçosas mantas de retalhos, demasiado cruas para servirem de conforto na mais fria das noites. Faltava-me prática. Método. Rotina. Voz.

Este pânico inconstante durou cerca de uma semana. Quem sabe, talvez duas. Comecei por desenhar uma rotina. Planeei os meus dias à sua volta, decido a cumpri-la à risca. O método veio depois. A ele seguiu-se uma voz.

A princípio tímida. Inconsequente. Desconfiada. Insegura. A necessidade, o tempo, a urgência e, enfim, o trabalho, deram-lhe força. De uma notícia por dia, escrita à prolongada velocidade de duas horas desperdiçadas, passei a escrever as cinco todas as sextas-feiras, de uma só vez, no espaço de uma manhã.

Hoje, tenho alguma ajuda, e as cinco são agora duas. Talvez esta recém-descoberta liberdade tenha encontrado na minha inspiração o espaço suficiente para respirar. Talvez seja por isso que hoje escrevo. Ou talvez apenas tenha cedido perante uma inevitável necessidade de o fazer. O tempo o dirá.

As vinte e poucas notícias mensais voltaram a despertar em mim hábitos e técnicas há muito adormecidas. Escondidas por entre a constante barragem de ideias e pensamentos que assolam o íntimo da minha mente. Culpadas, talvez, pela falta de energia e vontade em dar voz a algo capaz de se alongar para lá dos habituais cento e quarenta caracteres. Foram, enfim, uma faca de dois gumes que me silenciou por um período indeterminado.

Escrevo isto hoje sem música. Sem paz. Com ruído e vozes de fundo. Em casa. Depois do jantar. Longe do sótão. Longe do meu quarto. Longe de uma qualquer secretária num qualquer gabinete. Hoje escrevo pois hoje tive voz. Pois hoje tive vontade. Pois hoje tinha que o fazer.

Hoje é apenas um dia como outro qualquer. Um dia em que precisei de mais de cento e quarenta. Pois hoje, afinal, é um dia que não podia ser medido por um simples caracter.    

Monday, January 16, 2017

Dez Anos

Foto: Rebocado em Março de 2014
É difícil não me recordar daquela fria manhã quando ambos os tanques do meu carro ficaram a zero. Dos longos minutos que estive parado no acesso à Ponte da Arrábida. Do funil que a funcionária da Repsol me emprestou e que não mais devolvi. E do garrafão de água que tive de esvaziar para o encher de gasolina. Um dia irei reconhecer a ironia deste momento, mas esse dia ainda não chegou.

Podia também relembrar os dois acidentes que tive. O primeiro por falha dos travões naquela chuvosa tarde de Janeiro. O segundo por distracção numa escura noite com pouca ou nenhuma História. Podia, mas não o vou fazer.

Todos os passeios até à Torreira, ou São Jacinto. A viagem até ao Aeroporto. As manhãs de quarta-feira. As aulas de Russo. Os regressos nocturnos do Porto. As incontáveis passagens por Aveiro, Santa Maria da Feira, Vale de Cambra, Albergaria, São João da Madeira e Oliveira de Azeméis. Aquele mês passado em Coimbra. As incontáveis idas ao Furadouro, ao Modelo e ao Continente. Os rotineiros percursos entre casa e a estação. Aquela noite que fui ver os The Kills na Casa da Música. Como chovia. Pouco ou nada conseguia ver à minha frente.

Seria fácil enumerar todos os sustos. Todos os momentos em que me deixaste ficar mal. Desde aquela Viagem Medieval que decidiste não arrancar. Até àquele jogo da selecção que nos obrigaste a regressar a pé. 

São já dez anos de histórias. Dez anos de riscos. De pancadas. De viagens. De música. De momentos. 

Há quatro que deixaste de ser meu. Passaste a ser um companheiro de fins-de-semana, de férias. De um Agosto sem cantina. Hoje raramente te vejo. Raramente te uso. Há muito que me deixaste de ser útil. Há muito que deixaste de partilhar os meus dias.

Temo que estes dez anos marquem o fim da nossa história. Temo não ser capaz de encontrar alguém que te revitalize. Alguém que te dê valor. Está na hora de seguir em frente. De te deixar para trás. De encontrar um carro novo e de escrever novas estórias atrás de um volante que não o teu.

Faz hoje dez anos que passei no exame de condução. Numa tarde em que me esqueci de dar o pisca no acesso à auto-estrada. Onde não me atrevi a ultrapassar os 80, e onde repeti todas as manobras pelo menos uma vez. 

Podia ter contado como nessa mesma noite levei a antiga carrinha do meu pai até à Júlio Dinis para treinar no ginásio com o pessoal. Podia ter falado das diversas viagens que fiz. Ora contigo, ora com substitutos por um dia, ora com outros carros que não tu. Não o fiz e não o vou fazer.

Estás longe de ser um investimento. Foste apenas uma contínua despesa. Um longo buraco destinado a sugar todos os fundos necessários para se manter à deriva.

Estou a ser duro contigo, tal como tu foste. Uma besta difícil de domar. Imprevisível. Infiel. Inconsistente. Por vezes até desconfortável. 

Nem sempre estiveste lá. Nem sempre foste uma opção. Afinal, eras apenas um carro. Velho, usado, longe dos seus tempos áureos. O que poupavas em combustível gastavas em reparações. 

Não sei se a culpa foi minha. Do teu anterior dono. De nunca teres tido uma garagem. Do tempo. Da conversão para GPL. De quem te reparou. Da sorte. Ou de alguma simples sina ainda por decifrar.

Há dez anos foste a minha opção. Hoje talvez tivesse sido diferente. Mas, quanto a isso, nada posso fazer.

Até à nossa despedida, velho amigo, guardo em mim as recordações dos episódios que partilhámos. Apenas te peço que aguentes mais alguns meses até que encontre uma solução que te permita enfim descansar. Até lá continua a rolar. De casa para o Furadouro. Do Modelo para a Estação. Do Continente até ao Sal. Pelas estradas que tão bem aprendeste a conhecer. Até lá, velho amigo, continua a rolar, até ao meu regresso.

Saturday, December 31, 2016

As Terras do Meu Verão

Foto: Etapa Vizela WRC Rally de Portugal 2016; Autor: Adriano Cerqueira
Portugal
  • Aveiro (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Visita, Compras&Utilidades)
  • Barra (Visita, Tripas)
  • Carcavelos (Almoço)
  • Cascais (Visita, Lumina)
  • Coimbra (Residência, Visita, Cinema, Compras&Utilidades)
  • Espinho (Compras&Utilidades)
  • Évora (Estadia)
  • Gaia (Compras&Utilidades)
  • Gondomar (Natal)
  • Guia (Compras&Utilidades)
  • Guimarães (Visita)
  • Lagos (Visita à Praia da Ponta da Piedade)
  • Lamego (Visita ao Castelo e ao Santuário da Nossa Senhora dos Remédios)
  • Lisboa (Residência)
  • Porto (Entrevistas 90 Segundos de Ciência , Visita, Cinema, Compras&Utilidades)
  • Quarteira (Estadia)
  • Régua (Visita)
  • Santa Maria da Feira (Visita, Compras&Utilidades)
  • Santo Amaro de Oeiras (Praia)
  • São Jacinto (Visita)
  • São João da Madeira (Compras&Utilidades)
  • Silves (Visita ao Castelo)
  • Sintra (Visita)
  • Torreira (Visita)
  • Valença (Visita)
  • Viana do Castelo (Visita)
  • Vilamoura (Almoço, Visita às Ruínas Romanas de Cerro de Vila)
  • Vila do Conde (Visita)
  • Vizela (WRC Rally de Portugal 2016)

Itália
  • Bergamo (Aeroporto)
  • Milão (Visita e Estadia)
  • Verona (Visita à Casa di Giulietta e à Arena de Verona)

Friday, December 23, 2016

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte X

366 dias, 99 podcasts, 90 Segundos de Ciência, Oitchentcha e Oitcho minutos, 39 episódios de Jojo’s Bizarre Adventure, 26 bilharacos, 13 sequelas do Em Busca do Vale Encantado, 13 cêntimos de pão, um golo do Éder e 0 pencas depois, sejam bem-vindos a mais um episódio do Regresso da Véspera da Véspera de Natal, o momento mais aguardado pelos fiéis leitores deste blogue que este ano viveram esfomeados por novas publicações, e por todos aqueles cujo ódio a pencas os une nesta santa data. 

Era uma noite como qualquer outra, Jesus, o Cristo, estendia-se nas suas palhas a comer uma laranja. Uma distante luz no horizonte aproximava-se por entre as marés da praia da Nazaré, enquanto o McNamara surfava umas ondas do tamanho de montanhas.

A luz distante não era uma estrela, mas sim uma Nau, daquelas que a Nelly Furtado navegou no Estádio da Luz, numa fatídica noite em Junho de 2004. 

Jesus, McNamara e a Menina do Gás desceram até à praia para dar as boas-vindas aos estranhos viajantes que ali chegavam. “O meu nome é Pedro Álvares Cabral e ando em busca da Terra desconhecida chamada Brasil”, disse um estranho senhor em collants com uma boina bem maior que o necessário para o tamanho da sua cabeça. Estranha pelo simples facto de ser noite e não estar Sol. 

“Comprei-a nos saldos da Primark mas só havia este tamanho”, disse Cabral antes de Jesus, o Cristo, ter oportunidade de lhe perguntar o propósito daquela boina. 

Vasco da Gama, Jesus, o Jorge, Son Goku, a toalha do Eusébio, o Rei Peyroteo, e o Éder saíram do barco e juntaram-se a Cabral. Jesus, o Cristo, cuspiu as pevides da laranja e atirou a casca para a praia. “Meu, ‘tás todo virado, isto não é a terra desconhecida chamada Brasil. Tens que virar tudo para trás, passar pelo Centro Cultural, depois a casa funerária, onde vou ressuscitar passado três dias, segues, segues, dás um desvio nas Selvagens para tirar umas selfies com umas Cagarras e continuas a seguir até encontrares um tipo a dizer que algo é subjectivo.”

Son Goku sugeriu pedir ao Sexta-Feira que por ali se encontrava também, para fazer uma sopa da pedra enquanto ele se tentava lembrar de usar a transmissão instantânea para os tele-transportar para a terra desconhecida chamada Brasil.

Oitchentcha e Oitcho minutos mais tarde, enquanto Jesus, o Jorge, tentava falar espanhol com a Menina do Gás, o Rei Peyroteo passou a bola ao Éder que começou a correr para longe da baliza, enquanto Jesus, o Cristo, Vasco da Gama, Cabral, Son Goku e a tolha do Eusébio olhavam incrédulos para mais um disparate.

“Chuta daí, caralho!” Gritou o McNamara enquanto surfava o canhão da Nazaré, e como tiro de bala, Éder chutou. O resto é História. 

Naquele momento, enquanto Jesus, o Cristo, Vasco da Gama e Cabral festejavam o título europeu, limpando as lágrimas e assoando os narizes na toalha de Eusébio, Son Goku apertou a luva branca do Éder e disse a todos para darem as mãos.

“Kame-ah...”, “Pára!”, gritou Peyroteo que se acercava do grupo para relembrar Goku que não era isso que ele tinha que fazer. Son Goku comeu a sopa da pedra que o Sexta-Feira preparou e pôs dois dedos na testa. 

Segundos mais tarde, Goku, Jesus, o Cristo, Vasco da Gama, Sexta-Feira, Cabral, e a Menina do Gás encontravam-se na terra desconhecida chamada Brasil. 

Uma criatura estranha por ali se deslocava a dizer às pessoas o quão velhas elas estavam em vez de as cumprimentar decentemente. Vasco da Gama aproximou-se dele e perguntou se esta era a terra desconhecida chamada Brasil.

A figura que se apresentava por entre as brumas, era o Mindo. Da sua boca surgiram apenas três palavras: “Vasco, ‘cê tá velho”.

Isso eram quatro palavras. Sim, mas depois perdes o suspense. Os leitores vão pensar que ele ia dizer “Isso é subjectivo”. Para isso, eles teriam que já ter lido as anteriores. Ambos sabemos que isso não acontece. Tu é que não aconteces!

Depois de Vasco ficar sem palavras, Mindo, enfim, acrescentou “Isso é subjectivo”.

Uma estranha música começou a envolvê-los, vinda de uma origem desconhecida. A Menina do Gás aproximou-se de Mindo, colocou a sua mão sobre o ombro dele e começou a cantar.

“A tua gramática é péssima, o teu português é tão mau e faz-me tão triste... Nunca fazes qualquer sentido porque nunca pensas no que dizes. Nunca usaste um dicionário, porque a tua gramática é péssima. Nunca pensas que é sério ao não usares um ponto final, reprovaste a português na primária, porque a tua gramática é péssima.”

“Esta tipa fez alto rip-off do Your Grammar Sucks”, pensou Jesus, o Jorge, aliviado por não ter sido ele o alvo desta música.

Cabral, Vasco da Gama, Jesus, o Cristo e Sexta-Feira despediram-se dos restantes e voaram com Son Goku de volta a Nazaré para apanhar a Nau e a Nelly Furtado.

Jesus, o Jorge, e a Menina do Gás foram passear pela terra desconhecida chamada Brasil, onde, até hoje, ainda não viram uma única penca.

Em honra do Sagrado Chinelo, que morreu pelos nossos pecados, dediquem oitchentcha e oitcho minutos para espalhar pelo Mundo as palavras de felicidade que só um dia como o 23 consegue transmitir. Pois hoje é a Véspera da Véspera de Natal. Dêem as mãos e cantem todos comigo:

Morram Pencas, morram! Pim!