Friday, October 04, 2019

Twitter à distância de onze anos

Aniversário do Twitter

Foi numa aula de Novos Media já no meu terceiro ano de faculdade que me foi dada a conhecer uma nova rede social que, na altura, estava ainda longe de alcançar o impacto mediático que hoje tem. Estou a falar, obviamente, do twitter.

De microblogue, a sala de chat, de um espaço para criar e contar histórias, a uma caixa-de-ressonância de opiniões, ao longo dos últimos anos vi esta rede social evoluir e transformar-se. Muitos daqueles que conheci nesses primeiros tempos há muito que deixaram de participar no dia-a-dia desta rede. Alguns porque já não se identificam naquilo que ela se tornou, outros porque encontraram noutro espaço algo mais aliciante com o qual perder o seu tempo.

Quando comecei a usar esta rede usava-a essencialmente como uma plataforma para partilhar ideias e pensamentos. Era um microblogue usado para partilhar todas aquelas frases soltas demasiado pequenas para justificaram o espaço e a energia que uma publicação em um dos meus blogues exigia.

Cedo comecei a observar que nem todas as pessoas usavam o twitter da mesma forma. Algumas limitavam-se a partilhar ligações de notícias, vídeos ou outro tipo de conteúdo que achavam interessante, enquanto outras tinham transplantado a essência do mIRC para esta plataforma, e usavam-na como uma simples sala de chat para conhecer e interagir com novas pessoas.

Demorei algum tempo, confesso, mas eventualmente aprendi a responder, a fazer retuítes e a interagir com os diferentes utilizadores que povoavam esta rede. Ainda sou do tempo, sim, neste caso terei mesmo que usar esta expressão, mas de facto, ainda sou do tempo em que era possível ver as interacções de um utilizador com contas que nós não seguíamos. Foi, aliás, desta forma que conheci muitas das pessoas com quem interagi nos meus primeiros anos de twitter.

Um dos episódios mais caricatos foi quando aprendi a utilizar hashtags. Já tinha visto pessoas a colocar cardinais antes de uma palavra mas nunca percebi ao certo porque o faziam. Um dia, a acompanhar um evento, perguntei a várias pessoas o que era uma hashtag e qual a ligação que deveria colocar no meu navegador para acompanhar esse evento.

Após algumas tentativas frustradas acabei por recorrer ao Google, onde aprendi que uma hashtag era uma etiqueta precedida de um cardinal usada para ligar uma série de tuítes a um único evento.

Hoje em dia, basta carregar em uma dessas etiquetas para ver todos os tuítes em que elas são incluídas. Naquela altura não. Se queríamos seguir uma determinada hashtag era necessário ainda pesquisar por ela. Felizmente, esta alteração, ao contrário de muitas outras, acabou por ser positiva. Tanto que rapidamente redes como o facebook e mais tarde o instagram também adoptaram esta técnica, ignorando onde a mesma tinha sido originada.

Durante estes onze anos, confesso mais uma vez que nem sempre fui um utilizador assíduo. Por volta de 2012, já muitas das pessoas com quem convivia e falava numa base diária tinham saído desta rede. A partir daí comecei apenas a usar o twitter para divulgar artigos do meu blogue, notícias de ciência, música, vídeos e um ocasional pensamento solto.

Foi em 2015 que decidi voltar a usar esta rede de forma habitual. Comecei a seguir novas contas, a responder e a interagir com novas pessoas e, eventualmente, comecei a criar conteúdo que ia muito além da divulgação de projectos pessoais ou de pensamentos soltos.

Ao fim destes onze anos testemunhei como o twitter, os seus utilizadores, e o universo das redes sociais se alteraram em consonância com as vontades e com as necessidades das pessoas e do mercado digital.

Com esta riqueza de utilizadores com conceitos, ideias, percursos e histórias de vida distintas, o twitter transformou-se naquilo que é hoje. Para o bem, e para o mal.

Ao longo deste processo de transformação aprendi a identificar os diferentes tipos de utilizadores que coabitam nesta rede social. Podemos encontrar onze géneros claros de utilizadores que, primeiro em 140, e hoje em 280 caracteres, usam esta rede com os seus próprios propósitos e objectivos.

Algumas pessoas reflectem um pouco de cada um, mas é ainda possível encontrar exemplos de contas dedicadas apenas a um único foco.

O Ideólogo

Foi uma das primeiras espécies a habitar o twitter. São pessoas que publicam pensamentos e conversas internas sem nunca interagir com ninguém. Se em tempos eram a forma mais popular de usar este rede, hoje são vistos como párias, ignorando por completo um dos principais pilares de qualquer rede social, a interacção.

As Câmaras de Eco

Utilizadores que usam a sua conta para partilhar notícias, vídeos ou ligações sem nunca produzirem conteúdo próprio. Se têm alguma espécie de interacção com outras contas ou utilizadores, fazem-no apenas à base de retuítes.

Os Workaholics

Contas ‘profissionais’ usadas apenas para partilhar eventos relacionados com trabalho, ou com projectos desenvolvidos pelo seu utilizador. A interacção é mínima, usando a rede social como uma montra para eventuais empregadores. São pessoas para quem as redes sociais são uma ferramenta que usam para construir a sua própria personagem. O objectivo final é retirar os proveitos da sua popularidade online para fazer crescer a sua carreira profissional.

Os "papa conferências"

Estas contas limitam-se a fazer o acompanhamento de conferências. A opinião é dada através da selecção das citações dos oradores acompanhadas das hashtags do evento. A maioria apenas funciona uma vez por ano mas alguns parecem fazer vida disto.

Os storytellers

Uma espécie ameaçada que chegou até a ser alvo de notícias há cerca de oito anos. Foram um dos primeiros fenómenos associados a esta rede. Estas contas usam o twitter para contar pequenas histórias. Aspirantes a escritores que encontraram nos 140 caracteres, que agora são 280, o desafio ideal para a sua procrastinação.

Os endoutrinadores

Espécie que apareceu por volta de 2016. Políticos ou aspirantes a tal, que usam o twitter para criar bolhas de opinião onde o debate tem sempre um único sentido. Rodeiam-se de Yes Men que controlam para tentar humilhar e calar quem tem uma opinião diferente.

Os produtores de conteúdo

Especialistas e pessoas comuns que usam esta rede para partilhar e esclarecer temas que podem ou não estar na berra da agenda mediática. Conhecidos por construir longas threads, disponibilizam sempre fontes e ligações para quem quer saber mais.

Os facebookers

Pessoas que cresceram com o facebook e que tentam replicar a experiência que lá tiveram nas restantes redes sociais. Usam o twitter para partilhar fotos e acontecimentos do seu dia-a-dia na esperança de receberem gostos e interacções.

Os perfis ligados

Contas que apenas existem porque ‘temos que estar em todo o lado’. Os seus tweets são apenas links de publicações feitas no facebook ou no instagram. A interacção é rara e muitas vezes inexistente.

Os sociais

Malta que está aqui desde o início e que ainda usa o twitter como uma sala de chat. Dizem ‘bom dia’ e passam o tempo a interagir com outras pessoas, seja através de respostas ou por mensagem privada.

Os trolls

Utilizadores que apenas existem para ver o Mundo a arder. Nunca dizem nada sério. Insultam tudo e mais alguma coisa. Os perfis são falsos e devem ser sempre evitados. Alimentam-se de atenção. Sem atenção acabam por definhar.

Cada um de nós já passou por um destes diferentes estágios num certo momento. Alguns ficaram presos a uma destas identidades, outros fluem entre aquelas que mais se adequam à sua personalidade. É esta riqueza que torna o twitter um espaço tão interessante e, ao mesmo tempo, tão perigoso.

Para mim? Para mim continua a ser aquela casa onde os meus pensamentos, as minhas ideias, as minhas notas soltas sobre um determinado tema, habitam, coabitam e viajam para lá das páginas da minha mente, e para lá da projecção da minha voz, ou da minha escrita.

Não é um espaço que me define, mas é um espaço onde sei que tenho, e onde sempre irei ter, a minha voz.

Saturday, December 29, 2018

As Terras do Meu Verão

Foto: Onde o Couro é Tingido, Fez, Marrocos; Autor: Adriano Cerqueira
Portugal

  • Albergaria-a-Velha (Rede Expressos)
  • Alviela (Praia Fluvial de Olhos d'Água)
  • Amadora (Residência)
  • Aveiro (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Compras&Utilidades)
  • Bairro (Visita ao Monumento Natural Pegadas de Dinossauro)
  • Bombarral (Visita ao Bacalhôa Buddha Eden Garden)
  • Braga (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)
  • Branca (Copo de Água)
  • Carcavelos (Praia)
  • Castelo Branco (Jantar)
  • Coimbra (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Visita)
  • Covilhã (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)
  • Espinho (Compras&Utilidades)
  • Faro (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)
  • Fátima (Visita ao Santuário)
  • Gaia (Compras&Utilidades)
  • Gondomar (Natal)
  • Idanha-a-Nova (Almoço)
  • Lisboa (Residência, Comic-Con, Cinema, Compras&Utilidades)
  • Lourinhã (Visita ao Dino Parque)
  • Mira de Aire (Tentativa de Visita às Grutas)
  • Murtosa (Casamento Cecilia e Xavier)
  • Óbidos (Almoço, Visita, FOLIO)
  • Odivelas (Compras&Utilidades)
  • Oledo (Fim-de-semana de perigrinação do Sagrado Chinelo)
  • Ovar (Carnaval, Residência)
  • Porto (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Despedida de Solteiro Xavier, Visita, Compras&Utilidades, GraPE)
  • Santa Maria da Feira (Visita, Compras&Utilidades)
  • Santarém (Visita)
  • Santo Amaro de Oeiras (Praia)
  • São Jacinto (Visita)
  • São João da Madeira (Compras&Utilidades)
  • Sintra (Visita)
  • Torreira (Praia, Almoço)
  • Vila do Conde (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Compras&Utilidades)
  • Vila Real (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)
  • Vilar Formoso (Almoço)

Açores - Ilha de S. Miguel

  • Ponta Delgada (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)

Espanha

  • Salamanca (Aniversário, Visita)

Marrocos

  • Azrou (Visita)
  • Beni Mellal (Almoço)
  • Casablanca (Here's looking at you, Kid)
  • Ifrane (Visita Monumento ao Leão de Atlas)
  • Fez (Estadia, Visita à Medina)
  • Marraquexe (Estadia, Almoço, Visita)
  • Meknes (Estadia)
  • Rabat (Visita)
  • Volubilis (Visita às Ruínas Romanas)

Sunday, December 23, 2018

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte XII


365 dias, 236 conferências de imprensa de Bruno de Carvalho, 90 Segundos de Ciência, 50 arranhadelas do Dalí, 28 toupeiras, 17 bilharacos, 5 títulos europeus, 4 sequelas de Jurassic Park, um Morabed e 0 pencas depois, sejam bem-vindos a mais um episódio do Regresso da Véspera da Véspera de Natal, a tradição anual mais aguardada pelos fiéis seguidores da Igreja Universal do Sagrado Chinelo, e por todos aqueles cujo ódio a pencas os une nesta santa data.

Comecemos assim a nossa viagem num rooftop com vista para o Douro. A Menina do Gás, munida do seu telemóvel alimentado por uma Pluma da Galp, aproveita o pôr-do-sol para encontrar o seu ângulo mais instagramável. O seu sonho é um dia conseguir seguidores suficientes para ser convidada a participar num videoclipe do David Carreira. Para já contenta-se com algumas amostras de maquilhagem, e a habitual oferta de sushi para ilustrar momentos especiais como incêndios, terramotos ou outra tragédia similar.

Indecisa sobre que foto escolher, começam a cair mensagens no seu whatsapp. Dentro do grupo do pica-pau amarelo, Mindo, o subjectivo, partilha mensagens de apoio à candidatura de Bolsonaro, e umas notícias falsas sobre o estado de manutenção do viaduto Duarte Pacheco. Emigrado na terra conhecida chamada Fossa, Mindo congratula-se pelo voto secreto que deixou em branco a favor do regresso do fascismo à terra desconhecida chamada Brasil.

“Isso é subjectivo”, diz o Mindo em mensagem de voz, imediatamente bloqueado por Vasco da Gama, Jesus, o Cristo, Pedro Álvares Cabral e a Menina do Gás.

Entre citações de Pedro Chagas Freitas e de uma pita, – as minhas desculpas pela redundância – a linha do tempo do twitter português é pontoada por uma conta emergente conhecida pelo seu bom humor, pela sua assertividade de análise à diplomacia internacional, e pelo seu profundo conhecimento filosófico e literário. Em directo do Panteão, a Toalha do Eusébio protagoniza esta conta sem medo de pôr o dedo na ferida sobre os temas fracturantes da nossa sociedade.

Proibido de consumir os seus vídeos de intimidade caseira no Tumblr, Vasco da Gama, Fernando Pessoa e os seus Heterónimos, Jesus, o Jorge, e Moisés, embarcam numa Nau em busca da terra desconhecida chamada Brasil.

Pelo caminho entretêm-se a fazer scroll pelo facebook onde Jesus, o Cristo, partilha algumas fotos da sua viagem pelo Dubai. Ora na palha estendido, ora na palha deitado. Ora em cima de um camelo, ora com a verde-e-branca vestida acompanhada pelas hashtags #OndaVerde e #OMundoSabeQue.

Já no Youtube, Peyroteo publica um vídeo sobre o fim da internet como a conhecemos que faz com que os jovens percam as estribeiras e comecem a pesquisar por tutoriais sobre como votar, o que é essa coisa de União Europeia, se se come, e como ficar viral sem mostrar demasiado decote.

Os media espantam-se por Peyroteo, conhecido pelo seu podcast “Tu não entendes o Hip-hop”, onde se debatem os mais profundos sentidos da literatura de Nietzsche em comparação com as iluminadas dissertações de Kanye West, ter dedicado algum do seu tempo a um tema que, de forma continuada, tem caído nas catacumbas da agenda mediática.

Fernando, o Pessa, Álvaro de Campos, Jesus, o Jorge, a Menina do Gás e Vasco da Gama, perdem-se pelo Mediterrâneo em busca da terra desconhecida chamada Brasil. Pelo caminho salvam alguns migrantes do Norte de África e dirigem-se para Itália na esperança de serem bem recebidos.

“Excusi, bapidi, bopidi”, diz Jesus, o Jorge, oitochentos e ocho minutos depois de atracar em Nápoles.

“Que cosa?! Tu sei un pazzo! Va via di qui!”, responde um oficial italiano que recambia a Nau de regresso a Portugal.

Chegados a Lisboa, duas pessoas com coletes amarelos rodeadas por uma centena de polícias dão as boas vindas a Ricardo Reis, Jesus, o Jorge, Peyroteo e Vasco da Gama que enfim regressam da sua viagem.

A Menina do Gás dirige-se para o aeroporto para apanhar um avião para Bali com stop over no Dubai onde se irá encontrar com Jesus, o Cristo, ora nas palhas estendido, ora nas palhas deitado, para, em conjunto, criarem o milionésimo blogue de viagens com base nos seus seguidores do Instagram.

Já no twitter um longo debate começa a fervilhar por motivo do tema do próximo Prós e Contras. Este programa questiona quais os limites do cozido à portuguesa. Um tema fracturante que divide grandes facções da nossa sociedade, desde os ambientalistas, ao deputado do PAN, passando pelo senhor Vítor do Café Gidelos em São Bento da Porta Aberta.

Entre ameaças de porrada de um tipo em constante crise de meia-idade, e piadas sem qualquer nexo de outro tipo com baixa auto-estima, a comunidade divide-se entre aqueles que gostam de cozido, e os que acham que a linha da Lousã devia ser reconstruída como uma ferrovia normal.

A Toalha do Eusébio é a única conta que procura trazer alguma sanidade ao tema, sugerindo aos seus seguidores para trocarem o cozido por polvo à lagareiro ou por bacalhau com todos. Com todos, menos com pencas.

“E o bolo-rei sem glúten? E as rabanadas sem açúcar?”, questiona a Menina do Gás, imediatamente bloqueada por Peyroteo, Jesus, o Jorge, Alberto Caeiro, Eça de Queirós, Fernando, o Pessa, e por Sócrates, o José.

Em gesto de despedida, a Toalha do Eusébio deu um salto a Ervedal, onde por entre as silvas, e as heras, largou umas amoras em homenagem ao local de nascimento do Sagrada Chinelo, nosso Deus e Salvador, que nos mostra sempre o caminho.

E assim regressa o dia mais aguardado ao longo de todo o ano. Dediquem estas horas a espalhar pelo Mundo as palavras de felicidade que só um dia como o 23 consegue transmitir.

Pois hoje é a Véspera da Véspera de Natal. Dêem as mãos e cantem todos comigo:

Morram Pencas, morram! Pim!

Wednesday, November 28, 2018

Toxicidade

Imagem DR

Há cerca de três anos decidi deixar o facebook. Esta decisão não foi assim tão simples pois, para mal dos meus pecados, uma das minhas funções na empresa onde trabalhava então era a de gestor de redes sociais.

Tive assim que chegar a um compromisso. Tinha que arranjar uma forma de continuar a usar o facebook sem me ausentar desta plataforma. A solução mais simples passaria por criar um perfil anónimo para gerir a página. Contudo, isto entra em conflito com a minha necessidade de usar o seu sistema de mensagens.

Na verdade queria deixar de usar a timeline do meu facebook, mantendo todos os restantes benefícios que esta plataforma proporciona.

Optei enfim por uma opção de compromisso. Mantive a minha conta activa mas, em vez de abrir esta rede social na sua página inicial, comecei a abri-la na página da empresa. Deixei de fazer novas publicações. Deixei de responder a comentários. Reduzi a minha interacção ao mínimo necessário para não perder o contacto com as pessoas que me são mais próximas.

Para não dar a impressão que tinha de facto deixado o facebook mantive a minha conta de twitter ligada ao meu perfil. Os meus tweets continuavam a ser publicados no facebook sem que alguém notasse alguma diferença. Mas, a seu tempo, também isto deixei de fazer.

Para todos os efeitos, deixei de usar o facebook. Este deixou de ser uma plataforma pessoal e passou a ser apenas uma ferramenta de trabalho. Continuei a alimentar e a gerir a página da empresa, e não deixei de publicitar os meus feitos profissionais, assim como o meu blogue e portefólio, na minha página pessoal.

Contudo, através desta simples acção, consegui libertar-me de uma das minhas principais fontes de ansiedade.

Deixar o facebook foi uma decisão que tomei para o meu próprio bem-estar e para o meu equilíbrio mental. Fora isso, não retirei grandes benefícios palpáveis deste acto. A minha produtividade continuou igual. Sempre soube gerir bem o meu tempo, mantendo-me activo nas redes sociais sem alguma vez falhar qualquer prazo. E, no fim de contas, apenas troquei o meu tempo no facebook por uma mais intensa participação no twitter.

Durante pouco mais de dois anos, a única vez que me atrevia a ir além das páginas que geria era para felicitar alguém pelo seu aniversário.

Usei este tempo para pensar sobre o que me movia contra esta rede. Por que me custava tanto visitar a minha timeline?

A resposta era simples. Por medo. Medo do que podia lá encontrar. Medo do conteúdo tóxico. Medo do sentimento que uma foto, uma notícia, ou um comentário, pudesse despertar em mim.

Uma noite, respirei fundo e decidi limpar a minha timeline de tudo aquilo que era tóxico. De tudo aquilo que era negativo. De todas as pessoas, páginas e eventos que transmitissem qualquer tipo de sentimento destrutivo ou derrotista.

Deixei de seguir todas as pessoas tóxicas. Todos aqueles contactos que dia sim, dia sim, têm algo de frustrante ou derrotista para partilhar. Deixei de seguir todas as pessoas incapazes de ter uma base de diálogo com alguém com ideologias diferentes das suas. Fossem essas políticas, filosóficas, religiosas ou desportivas.

Deixei de seguir todos aqueles que associava a más memórias, momentos, ou recordações. Excepção feita apenas a quem estava lá para mim nesses momentos.

Mas também deixei de seguir algumas pessoas cujo perfil não encaixa nas mais comuns definições de toxicidade. Deixei também de seguir pessoas excessivamente felizes.

Lamento, mas não quero saber dos vossos amores, e desamores, das vossas vitórias, e conquistas, dos vossos sucessos, e carreiras, das vossas viagens, e passeios.

No fim, mantive apenas o meu núcleo de amigos, alguns contactos profissionais, pessoas neutras com vidas normais, e personagens intelectualmente estimulantes, fossem elas académicas, ou simples contemporâneos que, independentemente das suas filosofias colidirem ou não com as minhas, sabiam estabelecer um diálogo digno com a sua oposição.

Não analisei cada contacto individualmente. Avaliei-os consoante o impacto emocional de cada publicação que aos poucos aparecia na minha timeline.

Timeline essa que passou a estar muito vazia. Dominada quase inteiramente por páginas, por notícias, e por artigos de opinião.

Virei-me então para os grupos. Para pessoas com interesses similares aos meus. Fossem estes profissionais, desportivos, ou de entretenimento. Neste momento são eles que dominam a minha timeline. Uns mais que outros é certo, mas todos os dias mantenho-me a par das mais diversas novidades sobre os principais temas que me interessam.

Os restantes contactos não passam agora disso. São apenas uma bola verde no Messenger, de nenhuma forma diferentes de um qualquer número numa lista telefónica. Um pequeno preço a pagar por uma lufada de ar fresco no meu constante combate contra a ansiedade.

Consegui fazer isto sem me fechar numa bolha. Sem me recolher em um círculo de opiniões em comum. Todos os dias participo em conversas interessantes com pessoas que pensam diferente de mim. A maioria delas no twitter, claro, a discussão intelectual há muito que abandonou o facebook.

Os temas hoje em dia são as notícias falsas, a desinformação, a fraca qualidade dos media, e as típicas polémicas do dia-a-dia que tão depressa surgem, como desaparecem.

Continuo a usar o facebook esporadicamente. Já não estou na mesma empresa mas continuo a gerir redes sociais. Evito comentar qualquer publicação fora dos grupos onde sou membro activo. Limito-me a dar os parabéns a alguns contactos e a usar o Messenger para falar com os meus amigos.

O resto? O resto deixou de estar à distância de um clique.

Monday, November 19, 2018

Sem tempo, Sem dinheiro, Sem princípios: O jornalismo em Portugal

Imagem DR

Nunca os níveis de desconfiança nos media estiveram tão altos em Portugal e no Mundo, e nunca a qualidade do jornalismo foi tão baixa como é hoje. Os jornalistas são hoje um alvo constante de críticas e de audíveis protestos nas redes sociais, nas caixas de comentários dos seus próprios sites, em fóruns públicos e privados, junto das mais diversas instituições, e até mesmo pelos seus próprios colegas.

Nunca o seu trabalho foi tão esmiuçado, avaliado e exposto. Nunca estiveram estes tão pressionados pelo escrutínio da opinião pública. Nunca esta opinião pública reagiu tão a quente. Nunca esta opinião pública foi tão pouco exigente com a qualidade dos factos que partilha entre si.

Ser jornalista significa viver entre uma dicotomia constante de um público que exige qualidade de informação, ao mesmo tempo que a protesta quando a mesma não se insere na sua própria narrativa.

Ser um profissional da comunicação perante um cliente tão bipolar, acrítico e reactivo, nunca foi tão difícil. Nunca foi tão complexo. Nunca foi tão exigente.

Nunca foi tão preciso, tão necessário, que os media respondessem a isto com mais e melhor conteúdo. Com reportagens profundas e imparciais. Com recurso a especialistas conceituados. Com um cortar de relações com os poderes instalados, com os charlatões e com os vendedores de banha da cobra.

No entanto, o caminho escolhido foi o oposto. O do imediatismo. Da notícia de última hora. Do exclusivo. Do sensacionalismo. Do click bait.

Ao vivermos de perto a realidade das redações, ao conhecer os interesses que movem os seus editoriais e as suas direcções nada disto é surpreendente. É surpreendente sim o silêncio. O silêncio ensurdecedor de uma classe que não se manifesta. Que não se opõe. Que não critica. Que não procura cortar com o marasmo do ciclo noticioso. Que não pára para respirar.

E, apesar de tudo isto, muitas vezes a culpa é mal dirigida. É impossível pedir mais a um jornalista que vive com pouco mais de setecentos euros por mês. Que chega a trabalhar turnos de dez a doze horas seguidas sem direito a horas extra. Que está sujeito à pressão do tempo. À pressão dos editoriais. À pressão da viralidade do seu próprio conteúdo.

É difícil pedir mais a alguém que vive uma situação precária. Que está há anos a recibos verdes. Que todos os dias chega à redacção sabendo que este pode ser o seu último.

Não é justo pedir a um jornalista para pensar quando a sua mente está ocupada com as contas que tem para pagar, com o stress que tudo isto causa na sua família e nas suas relações.

Quando não basta seres bom, quando não tens tempo para escrever, quanto menos para pensar, quem sofre é o conteúdo. Conteúdo esse que muitas vezes não passa de uma nota de imprensa replicada. Do relato unilateral de uma única fonte. De pouco mais que frases feitas que alguém disse para fazer passar a sua mensagem.

Não, não culpo o jornalista comum. O jornalista comum não tem tempo. Não lho dão. O jornalista comum não tem voz. Não o deixam falar. O jornalista comum não tem segurança. O salário dele quer-se baixo. Ele tem que sobreviver, não que viver. O jornalista comum não tem saúde. Sem dormir, sem parar, sem respirar. O jornalista comum não tem tempo para a família. Sempre em piquete. Sem férias. Sem descanso.

É esta a realidade de uma classe que vê os seus melhores profissionais a mudarem de carreira mal saem da universidade. É esta a realidade de uma classe cujo trabalho é julgado em praça pública onde todos somos júri, juiz e executor, sem direito de resposta.

Os poucos que ainda conseguem viver desta profissão. Aqueles que têm tempo para pensar, para pesquisar, para encontrar as fontes, para ouvir os intervenientes. Esses são cada vez menos. Cada vez mais raros e cada vez mais cansados para se preocuparem com as questões mais estruturantes da sociedade actual.

Os restantes estão limitados pelas próprias direcções. Onde antes apenas se respeitava o estilo editorial imposto pela filosofia do próprio meio, hoje temos o bloqueio do capital. Um jornal não pode ousar publicar uma notícia negativa sobre a sua empresa mãe ou sobre um patrocinador. Não sem arriscar fechar portas ou despedir pessoal.

Se for possível, tal notícia será abafada por tempo indeterminado, ou remetida a um canto obscuro de uma secção que ninguém lê. Se a concorrência decidir publicá-la, terão que esperar por ordens dos intervenientes antes de seguirem com a sua divulgação.

Em tempos os jornalistas trabalhavam com gabinetes jurídicos do próprio jornal. Se uma notícia era efectivamente complexa, pediam conselhos, recolhiam todas as fontes, e só depois a publicavam. Hoje, é tudo para ontem. Os factos são alternativos. E o que não interessa, não aparece.

Por vezes, nem sequer há uma real malícia por parte da direcção, mas uma simples protecção da sua fonte. Sem entrar em clubismos, basta olhar para como os jornais desportivos cobriram a investigação do fisco espanhol às contas de Jorge Mendes.

Jornais que vêem neste empresário uma fonte importante de furos e de notícias de última hora, corriam o risco de perder o exclusivo se tentassem publicar algo sobre o tema. Questionados sobre o seu silêncio por jornalistas espanhóis, alguns editores apenas responderam “não nos arranjem problemas”.

É esta permissividade entre os poderes instalados, as grandes instituições e os testas-de-ferro do grande capital, que polui e destrói a credibilidade editorial dos principais meios da nossa praça.

É por isso que cada vez mais nos voltamos para blogues, para projectos independentes como o Fumaça, e para barómetros de coerência e acuidade como o polígrafo e Os Truques da Imprensa Portuguesa.

Estes espaços são neste momento os principais instrumentos de democratização da informação em Portugal. Estes espaços têm tempo. Espaço para respirar. Segurança. Qualidade. E, acima de tudo, procuram apenas informar, corrigir, alertar, ou até, só dar a conhecer.

Não dão tantos cliques. Não são tão virais. Os títulos não são tão chamativos. Mas a informação é real. É cuidada. É, apenas e só, baseada em factos. Em trabalho de investigação.

Deem tempo ao jornalista comum. Deixem-no respirar. Deixem-no trabalhar numa única peça por dia, se esta o justificar. Deem-lhe um salário digno. Tempo para si, para a sua saúde, e para a sua família.

Procurem por outras fontes de publicidade. Não tenham medo de cortar com um investidor se este vos forçar a impor a sua própria agenda.

Acima de tudo, sejam fiéis aos princípios que movem a nossa profissão.

Quando o jornalismo é livre, quando o jornalismo tem em si a voz dos factos e nada mais, somos todos vencedores.

Quando assim não é, a própria democracia e os direitos mais básicos são postos em causa.

O estado actual dos media não é surpreendente, mas é, e sempre foi, evitável. Basta aprender a dizer não.