Wednesday, December 23, 2009

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte III

365 dias, 64 bilharacos, 12 aplicações em max, 3 canções midi, 1 pão-de-ló e 0 pencas depois, está de regresso a véspera da véspera de Natal! A cantar desde 1919.

Esse não era o galo? O azeite queres tu dizer. O azeite canta? Não, o azeite galo. Atum? Ramirez? O que é que isso tem a ver com o Acordo Ortográfico? Nada, mas isto tem:

Vasco da Gama, Eusébio, Sócrates (o filósofo), Camões, Jesus (o Cristo) e o já habitual Mindo, estavam numa terra desconhecida chamada Brasil situada no extremo mais ocidental da Europa. O ano é 2020, e o Acordo Ortográfico está prestes a fazer 10 anos. Tal como o escudo já ninguém se lembra de como se escreve em português, nem tão pouco de como se fala essa língua que, juntamente com o nome do próprio país, há 10 anos que desapareceu da mente dos brasileiros que outrora se auto denominavam portugueses.

Camões está no Panteão Nacional, foi lá dar umas voltas na campa. Tal já faz parte da sua rotina diária desde que alguém teve a brilhante ideia de chacinar a língua que ele sozinho ajudou a imortalizar através de um certo manuscrito chamado “Os Lusíadas” (uma epopeiazita qualquer que nunca ninguém leu, nem tem intenções de ler), e adoptar o Português do Brasil como língua oficial.

Hoje, Eusébio acompanha o seu amigo Camões na sua rotina matinal. De vez em quando o Pantera Negra lá vai dar uma volta à velha Lourenço Marques, se bem que aí nem vale a pena falar-se em português, ou brasileiro, já que há muito é o inglês a única língua que vale a pena aprender – não estivesse a África do Sul mesmo ali ao lado – mas hoje está de regresso a Lisboa.

Não, a selecção não joga hoje, essa nem precisou de esperar pela aprovação do Acordo Ortográfico, os jogadores brasileiros há muito que encontraram na selecção “portuguesa” um óptimo palco para se reformarem e ganharem alguns trocos enquanto o Brasil os ignora por terem vindo jogar para este lado da Península Ibérica, e não para o outro. Teria o Saramago razão em sugerir que nos uníssemos a Espanha para formarmos a mítica Ibéria? Não sei, mal por mal, mais vale ir para a velha Lourenço Marques treinar o meu inglês.

Jesus (o Cristo) toma café com Sócrates (o filósofo) em Santa Catarina no recém-criado Condado Portucalense – a onda de protestos contra o Acordo Ortográfico forçaram o Porto e algumas regiões do norte do país a exigirem a independência, que rapidamente foi concedida, visto Lisboa simplesmente não querer saber.

“Acho que está na altura de experimentar o 4-4-2 losango, aquele Paulo Bento até não tinha uma má ideia”, disse Jesus (o Cristo).

“Mas tu não és o Cristo? O Salvador?”, questionou Sócrates (o filósofo).

“Já não sei, se queres que te diga. O outro consegue ser mais idolatrado que eu, embora tenha sido incapaz de ganhar seja o que for”, respondeu Jesus (o Cristo).

“Isso é subjectivo!” Disse o Mindo que por ali passava.

Já Vasco da Gama, há muito que zarpou em busca de uma terra desconhecida chamada Brasil, mas deve ter dificuldade em entender os novos mapas, pois há anos que anda às voltas entre o Tejo e o Douro sem arranjar maneira de seguir em direcção ao ocidente. Já para não dizer que ninguém aceita ser pago em escudos. Já agora, têm noção que 100 euros são 20 contos? E que dois euros são 400 escudos? Na minha juventude quando me davam 200 escudos eu estava rico e rendia-me durante uma semana! Enfim.

De volta a 2009, Sócrates (o filósofo) questiona-se sobre o porquê das Tardes da Júlia existirem, e pondera sobre o facto (com c) de não conseguir mudar de canal pois por algum motivo incompreensível ao comum dos mortais, ele quer ouvir a história (e não estória) da senhora com dois cães que leva porrada do homem do leite, e que nunca conheceu o seu verdadeiro amor.

Camões está no Chiado a tomar café com o Fernando Pessoa (ou com algum dos seus heterónimos, é difícil distinguir) e a discutir a contratação de João Pereira. Já Vasco da Gama está a criar uma interface em max/msp/jitter para criar um sistema estocástico em midi, através de um algoritmo que o faça descobrir o bilhete de avião mais barato para a Índia.

Jesus (o Cristo), enquanto se prepara para nascer, outra vez, decide ir ao cinema ver o Lua Nova. Duas horas de abdominais esculturais depois, Jesus (o Cristo), decide inscrever-se num ginásio (se ficar como o Jacob talvez arranje uma miúda melhor que a Maria Madalena).

Por fim, o Mindo passa por umas pencas – também conhecidas como covões –, contempla-as por um momento e segue o seu caminho rumo a um horizonte indeterminado. Um infinito de 365 dias incertos que acabam com um constante retorno ao mesmo lugar, ao mesmo dia. “Hey! Isso é subjectivo”, diz.

E assim termina mais um episódio da véspera da véspera de Natal! A todos um Feliz Natal e que o Avô Geada não vos ponha pencas no sapatinho!

Morram pencas, morram! Pim!

Thursday, December 17, 2009

21 Anos, 21 Livros

Não, não li apenas 21 livros em toda a minha vida, nem vou fazer uma lista dos 21 melhores livros que li até hoje. Não, 21 é o número de livros que li durante o ano de 2009. Alguns de vocês podem achar que foram muitos, outros vão pensar o contrário.

Para mim este feito é um verdadeiro recorde pessoal. Habitualmente não perco tempo a contar o número de livros que leio durante um ano, nem tão pouco a catalogar aqueles que li, contudo, a propósito da renovação do design do meu blogue, escolhi colocar no menu direito uma secção dedicada à divulgação do livro que estou a ler neste preciso momento, à qual associei uma lista de todos os livros que fui lendo ao longo do ano, a já afamada rubrica “Cantos de uma estante” – nome original, não acham? Graças a essa rubrica perdi hoje dois minutos do meu tempo para contar os livros que passaram pelas minhas mãos no ano em que completei 21 anos, e não é que li precisamente vinte e um livros nos últimos doze meses? E esta, hein?

Para ser justo apenas li vinte livros, visto ainda não ter terminado o vigésimo primeiro, Um Diário Russo de Anna Politkovskaya. Enquanto folheio por entre as restantes duzentas e poucas páginas dessa crónica da Rússia real – que espero terminar antes do final do ano – reflicto não só sobre a quantidade de livros nos quais emergi os meus olhos, e a minha imaginação, ao longo destes meses, mas também sobre a qualidade dos mesmos.

Termino o ano com aquela que é a última obra de Politkovskaya antes de ser brutalmente assassinada simplesmente por se opor ao regime de Putin. Um livro que retrata os factos reais por detrás das eleições para a Duma de 2003, e da reeleição de Vladimir Vladimirovich em Março de 2004, dando ainda relevância a acontecimentos que no mundo ocidental seriam considerados crimes contra a humanidade, mas que na Rússia de Putin nem chegam aos telejornais.

O meu último livro de 2009, o meu vigésimo primeiro livro do ano em que fiz 21 anos, é essencialmente uma análise de hard news, que talvez nunca chegasse a ser conhecido pelo resto do mundo, não fossem as circunstâncias da morte da sua autora. Ao pegar neste pequeno exemplo talvez esperem encontrar outros livros do género nos “cantos da minha estante”.

De facto, é bem provável encontrarem um ou outro, mas vamos dar uma olhadela no plano geral e ser mais analíticos na quantificação dos livros que lá figuram. Este ano, não li apenas um, mas cinco livros da Stephanie Meyer. O que representa quase um quarto do total. Entre os livros desta escritora medíocre que mal consegue juntar duas ideias e que vive com um constante medo de causar qualquer tipo de dano (físico ou emocional) às suas personagens, – medo esse que a faz sacrificar por completo a história principal apenas para não “magoar” os seus “queridos” leitores – encontram-se obras de grandes escritores. De Eça de Queirós a José Saramago, de Arthur Conan Doyle a Fernando Pessoa, de Dostoevsky a Kafka. Estarei a ser simpático ao dizer que o meu espectro literário é bastante alargado.

Na lista consta uma repetição, que de repetido nada tem: The Lost World. Embora já andasse há anos para ler o original de Sir Arthur Conan Doyle, é o mundo perdido de Michael Crichton que mais me impressionou. O livro, como sabem, serviu de inspiração para a sequela do Jurassic Park – aquele que para mim é o melhor filme da trilogia – contudo, tal como acontece com a primeira obra de Michael Crichton, o livro consegue ser muito melhor.

A história de The Lost World é completamente diferente daquele que Spielberg imortalizou em película. Embora tenha um pouco menos de acção, não só é muito mais realista como tem mais história, maior desenvolvimento das personagens, e é simplesmente uma óptima leitura, quer se seja fã de Jurassic Park, ou não. O meu paleontólogo interior tende a discordar com algumas das aferições que o Michael Crichton insiste em fazer. Mais concretamente acerca dos poderes de camuflagem do Carnotaurus, mas a verdade é que da perspectiva do meu eu leitor e do meu eu escritor, a qualidade do livro no seu todo foi uma grande surpresa pela positiva.

Alguns dos livros não tiveram a atenção merecida. Muito por ser um paperback que custou-me pouco mais de uma libra no Amazon, mas também por me ter limitado a lê-lo no comboio, e de vez em quando nos Jardins do Palácio de Cristal quando, nesta Primavera, tinha que fazer horas para a aula de Russo, não me lembro de nada sobre o que se passava no Notes from the Underground. Este é um defeito que não sou capaz de compreender. Às vezes sou capaz de passar vários minutos a ler um livro, mas a minha mente divide-se como que em duas personalidades, e embora esteja de facto a ler o livro, os meus pensamentos estão noutro lado e não consigo lembrar-me de uma única palavra que tenha lido.

É uma pena que tal tenha acontecido com o meu primeiro contacto com a obra de Dostoevsky, contudo, pretendo compensar este pequeno livro e dar-lhe uma segunda tentativa de leitura quando encontrar um intervalo na minha lista de livros para ler. Geralmente quando isto me acontece, uma certa passagem no livro, ou uma súbita alteração na história, fazem-me regressar à realidade e acabo por reler a passagem que “perdi”. Nunca antes me aconteceu perder um livro por inteiro, infelizmente foi com um daqueles que mais interesse tinha em ler.

Restam-me 14 dias para terminar Um Diário Russo, tempo mais do que suficiente. Mesmo com as festas, apenas um sério caso de preguiça (ou um súbito desinteresse total pelo livro) me faria desleixar dessa forma. Tenho agora que dar lugar a 2010, e arranjar um novo canto na minha estante para os romances que anseiam por serem lidos.

Conseguirei chegar aos 22? Irei ultrapassar essa marca, ou será 2009 aquela pequena excepção na minha vida de alimentação literária? Daqui a um ano cá estarei para responder.

Sunday, November 22, 2009

Manifesto Anti-Alguma Coisa

Cada subsistema tem duas componentes (como a palavra estocástico indica): uma componente aleatória e um processo de selecção que trabalha nos produtos da componente aleatória.

Bateson, Gregory. Mind and Nature. A Necessary Unity. New York: E. P. Dutton, 1979

Um sistema estocástico é um conjunto de processos que não estão submetidos senão a leis do acaso. Os fãs de Jurassic Park devem-se recordar da Teoria do Caos enunciada por Ian Malcolm através da metáfora do "efeito borboleta". Isto é, se uma borboleta bate as asas no Central Park em Nova Iorque, um tufão aparece na costa japonesa. Essencialmente, um conjunto de eventos que à partida nada têm em comum, acabam por formar um padrão responsável por um dado resultado. Esta teoria levanta vários pontos de interesse e é alvo de estudo pela maioria das mais conceituadas universidades do mundo. Contudo, até hoje nunca tinha visto uma aplicação prática desta teoria, muito menos usada como método de ensino, até ao dia em que iniciei as aulas de Sistemas Digitais Interactivos.

A aleatoriedade e a ausência completa de sentido ou orientação é a única constante num sistema de ensino, cuja palavra caótico não começa sequer a descrever o caos que se vive, quer na mente do professor, quer na compreensão – ou na falta dela – por parte dos alunos. O primeiro acto paradoxal ocorreu aquando da descrição do próprio plano curricular da disciplina. Supostamente a avaliação é distribuída através de exame final, contudo, as cotações percentuais para cada trabalho perfazem 100% da nota final, sem qualquer indicação da existência de um exame. Se tudo indica que não há, efectivamente, um exame atribuído a esta disciplina, porquê dividir as aulas em hora e meia de teoria se essa não é aplicável nos projectos práticos que temos de realizar?

Como se tal incoerência não fosse suficiente, outras decisões "aleatórias" e sem sentido acrescentam uma maior perplexidade à situação. Apesar de desde a primeira aula ser claro que a sala onde temos aulas não tem espaço suficiente para todos os alunos, o professor insiste em dar a parte teórica lá, sem ter ainda sugerido sequer a possibilidade de mover as horas teóricas para um anfiteatro, ou para outra sala mais apropriada para o número de alunos. Se a faculdade fosse pequena até seria compreensível, mas estamos a falar de uma faculdade maior do que muitos campus universitários que existem por esse país fora, já para não falar que às sextas-feiras ao fim da tarde a grande maioria das salas encontram-se vazias.

Mas os problemas não são meramente burocráticos ou logísticos. Antes fossem. Os projectos que os alunos têm de realizar até ao final da disciplina são realizados em grupos de quatro elementos. Até aqui tudo bem. Contudo, o professor faz questão de juntar os grupos ele próprio, através de um critério que indica que em cada grupo deve haver um elemento correspondente a cada um dos quatro perfis disponíveis no mestrado. Isto não seria problema se os alunos do perfil de tecnologias não representassem mais de metade do número de alunos de Sistemas Digitais Interactivos. Já para não dizer que só porque alguém se encontra dentro de um perfil tal não significa que o seu background académico e profissional tenha algo a ver com o perfil escolhido. Já para não dizer que ele não permite que os alunos escolham os grupos por si só, mesmo com o argumento de tal ajudar na realização de trabalhos para outras disciplinas, visto ser mais complicado conciliar os diferentes projectos quando para cada um vemo-nos obrigados a lidar com pessoas diferentes.

Se a ideia é criar grupos multidisciplinares então o critério devia estar à mercê dos próprios alunos e o processo de selecção devia ter como base o background académico, e não o perfil escolhido dentro do mestrado. Já para não dizer que ele limitou-se a ir por ordem alfabética escolhendo as pessoas consoante o perfil escolhido. Isto resultou com que os primeiros grupos sejam de facto compostos por elementos de perfis diferentes, mas os grupos mais à frente na lista chegam a ter três ou mais elementos do mesmo perfil. Um sistema de tal modo caótico que quase de certeza acabará por criar um grande fosso nas classificações finais.

Por que é tão importante a escolha das pessoas através dos backgrounds? A resposta remete ao último, e pior, acto paradoxal. Como primeiro projecto, o professor disse que criássemos alguma coisa, desde que aplicássemos sistemas estocásticos. Ou seja, uma interface qualquer, sobre um tema qualquer, desde que seja aleatória. E para tal disse para usarmos o software max/msp/jitter, cuja maioria dos alunos nem sequer tinha ouvido falar antes de entrarem em contacto com Sistemas Digitais Interactivos. Resultado: Os grupos que tinham alunos que percebiam de max criaram trabalhos de um nível mais elevado do que aqueles que não tinham.

No meu caso, até tive a sorte de um dos meus colegas ser uma espécie de génio de max e a nossa interface acabou por ser das melhores, se não mesmo a melhor, presente na sessão de apresentação. Como é possível um professor avaliar os alunos objectivamente quando tantas variáveis põe em causa a execução de um projecto?

Em toda a justiça, o professor iniciou umas sessões de introdução ao max em horário fora do seu expediente, contudo, a primeira aula foi no dia anterior à entrega do primeiro projecto. Não faria mais sentido dar mais algumas aulas de max antes de exigir uma entrega com esse peso?

Antes de concluir, gostaria de falar da própria designação de Sistemas Digitais Interactivos. Eu via esta disciplina como uma oportunidade de desenvolver o meu conhecimento de tecnologias, como o Flash, Illustrator ou Dreamweaver, na criação de interfaces interactivas que possam ser aplicadas na vida real. Contudo, o propósito real da disciplina é a criação de instalações digitais interactivas com base em tecnologias que exigem um grau elevado de bases de conhecimento anterior, cuja maioria dos alunos não tem. Já para não falar que a cadeira está demasiado direccionada para a música e o tratamento de som, não fosse ela dada por um músico, e os restantes aspectos da multimédia são descurados.

O meu conceito de multimédia é a interacção e colaboração de vários meios (áudio, som, imagem, etc.), e não a multidisciplinaridade entre pessoas de áreas diferentes. Eu escolhi este mestrado para aprender tecnologias e desenvolver a minha capacidade de criar interfaces, não para limitar-me a usar aquilo que já sei e ver os outros a trabalhar. Não fosse esta disciplina obrigatória, já a teria trocado enquanto tinha tempo. E sendo ela obrigatória para os perfis de Música Digital e Tecnologias como se justifica uma completa orientação para área musical?

Termino assim o meu manifesto anti-alguma coisa. Uma disciplina de Mestrado devia ter um nível de exigência claramente objectivo e não reger-se por sistemas aleatórios. É bom abrir espaço para a criatividade, mas deve-se também ter em conta certas linhas orientadoras. Alguma coisa não pode ser algo aleatório, mas algo concreto que respeite certas leis, deixando o caminho livre para a liberdade criativa.

Morre Sistemas Digitais Interactivos, morre! Pim!

Friday, November 20, 2009

Em 2009

Em 2009 aprendi que:
  • A maioria dos clichés têm razão de ser;
  • O que parece, nem sempre é;
  • Nada vem àqueles que esperam;
  • Quem desdenha, quer comprar;
  • Tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia lá deixa ficar a asa;
  • Não há duas, sem três;
  • Não há três, sem quatro;
  • E por aí em diante;
  • A cavalo dado não se olha o dente;
  • Se é bom demais para ser verdade, não é;
  • Conhecedor de vários ofícios, mestre de nenhum;
  • Mais vale tarde, do que nunca;
  • Olha antes de saltares;
  • As melhores coisas na vida são gratuitas;
  • O silêncio é ouro;
  • Quem não arrisca, não petisca;
  • Não há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão;
  • A vida é feita de encontros e desencontros;
  • O futuro é aquilo que nós fazemos dele;
  • As memórias são meras fantasias de momentos banais;
  • A vida é curta...
...e a resposta é 42. Porquê? Porque a vida é aleatória.

Wednesday, November 11, 2009

Over the Eyes de Maile Colbert

video

Over the Eyes
Autor: Maile Colbert
Exibição: Maus Hábitos, futureplaces 2009
Edição: Adriano Cerqueira 
Imagem: Eliana Ribeiro

Interestrelar de André Sier

video

Interestrelar
Autor: André Sier
Exibição: Maus Hábitos, futureplaces 2009
Edição: Adriano Cerqueira 
Imagem: Eliana Ribeiro

Monday, October 26, 2009

Meios de Comunicar: A Arte do Jogo

futureplaces
Não há uma segunda oportunidade para criar uma boa primeira impressão.

As primeiras três semanas do meu primeiro ano de Mestrado em Multimédia podem-se resumir às seguintes palavras: novidade, criatividade, egocentrismo, futureplaces e multimédia.

Novidade, quase que se justifica por si própria, nova faculdade, novos colegas, novos professores, novos caminhos, mas acima de tudo, novo olhar sobre a arte da comunicação. Existe na verdade um tremendo contraste entre este mestrado e o curso anterior. A começar pelas condições que uma faculdade que por si só acaba por se impor na paisagem da Invicta como um verdadeiro campus universitário, fazendo ao mesmo tempo parte da UP, mas algo distante da imagem que as restantes faculdades transmitem, quer ao nível estrutural, quer ao nível administrativo.

Contudo, o terror burocrático mantém-se, e a falta de informação é quase tão grave como a vivida na licenciatura. A incógnita relativa à existência, ou não, de material como câmaras, máquinas fotográficas, microfones e gravadores passíveis de serem requisitados pelos alunos é, até ao momento, a falha mais grave de um mestrado que na sua base exige o recurso a vários media.

A fase de transição de planos curriculares também motiva a que alguns professores não tenham ainda definido o modo de avaliação, ou o que pretendem da cadeira que leccionam, e dos próprios alunos. O que nos deixa, até ao momento, numa espécie de calma de antecipação.

Contudo, também há boas novidades dignas de salientar. Desde os protocolos com a UT Austin que ao longo do mestrado, e consequente programa doutoral, vão promover o intercâmbio de alunos e professores, à possibilidade de realização de estágios em solo americano. Segue-se o apelo à criatividade sem receio de apostar em meios recentes, apelando à exploração de ideias originais e de novos conceitos de multimédia.

Criatividade é a palavra que se segue, apesar da expressão “liberdade criativa” ser o termo mais correcto. Logo na segunda semana foi-nos pedido para assistir a eventos do festival futureplaces e a documentá-los da forma que acharmos mais adequada para depois criarmos alguma plataforma de divulgação da informação recolhida. Embora a ideia possa parecer como um golpe de marketing barato, a verdade é que na sua simplicidade permitiu aos alunos não só observar o nível de envolvência do mestrado com as novas formas de criar plataformas para os media, como também lhes abriu as asas para criar sem se sentirem presos a regras estabelecidas.

O futureplaces em si, foi uma boa oportunidade para entrar em contacto com artistas e investigadores de multimédia e comunicação, servindo como uma espécie de preview para o que nos espera no ano seguinte.

Egocentrismo, não tanto no sentido de alguém se fechar sobre si próprio, mas mais no isolamento de ideias e na falta de convívio entre os colegas. A falta de alguma espécie de evento social que ajudasse os alunos a conviverem uns com os outros e a conhecer a própria faculdade foi uma falha tremenda que demorará alguns meses a ser corrigida. Talvez aqui se veja a necessidade de um elemento de interacção comum que algo como a praxe proporciona ao nível das licenciaturas. O tempo e os inevitáveis trabalhos de grupo talvez permitam a criação de alguma espécie de envolvimento social entre os alunos, mas isso, só o tempo o dirá.

Por fim, a palavra multimédia não podia deixar de estar presente, nem que seja por dar o nome ao curso. O conceito multimédia de alguns dos professores passa não pelo ensino de tecnologias que permitam o uso de vários meios – tal está reservado para o segundo semestre – mas sim pela interacção entre alunos com backgrounds diferentes. Isto leva a um conceito de auto aprendizagem com base nos conhecimentos dos nossos colegas, algo que de certa forma compreende-se, visto tratar-se de um mestrado e não de uma licenciatura. Mas que, ao mesmo tempo, coloca em dificuldade as pessoas que surgem no curso com falta de bases de programação e de uso de tecnologias multimédia.

Uma a uma, cada cadeira deste semestre tem os seus pontos bons, e os seus pontos que não sendo maus, por enquanto encontram-se indefinidos.

Tecnologias da Comunicação Multimédia, como o nome indica é uma disciplina teórica que procura explicar o funcionamento de tecnologias como algoritmos de compressão, redes e computadores. Sempre se questionaram sobre o porquê de um jpeg ter esse nome? Então esta é a maneira perfeita de desperdiçarem as manhãs de sexta-feira. Sistemas Digitais Interactivos é algo tão abstracto que nem ele próprio sabe ainda bem o que é. Mais uma vez o objectivo não é a aprendizagem de programas, mas sim a adequação dos conhecimentos prévios de cada um aos projectos que vão ser sugeridos. Uma visão teórica sobre a interactividade de media, dando espaço à criação de instalações artísticas e interfaces recorrendo à totalidade de hipóteses que a multimédia permite.

Laboratórios Multimédia, é, até agora, a única disciplina cujo plano se encontra plenamente definido. Essencialmente, consiste na criação de dois projectos, o primeiro uma narrativa interactiva com uso a todas as tecnologias disponíveis consoante os recursos de cada grupo. Já o segundo passa pela criação de uma interface similar a uma rede social. Os projectos incluem relatórios e calendarização detalhada, tendo cada um a duração de seis semanas.

Finalmente a incógnita reside sobre a cadeira opcional. A minha escolha está entre Arte e Comunicação Multimédia, um olhar sobre o que é arte ao serviço dos meios contemporâneos, e Jogos, uma disciplina cujas aulas ainda não tiveram início mas cuja base é a criação de um jogo, algo que exige um conhecimento de programação bem distante daquilo que possuo, ou melhor, que não possuo.

Estas três semanas deixam-nos assim num estado de serenidade, aguardando ordens mais definitivas para a execução de projectos. Até lá resta-nos aguardar por dias mais agitados à medida que se aproximem os prazos de entrega e cujo tempo escasseie até ao ponto de 24 horas por dia não serem suficientes.

Enquanto esses dias não chegam resta-me ficar pelas primeiras impressões que não se voltarão a repetir.

Sunday, October 18, 2009

A Nova Ordem de um Mau Tenente

Bad Lieutenant
Os primeiros meses de 2007 ditaram mais uma separação por tempo indefinido dos New Order. Os já habituais desentendimentos entre Peter Hook e Bernard Sumner levaram Hooky a deixar a banda para embarcar num novo projecto, um super grupo composto apenas por baixistas. Bernard Sumner, Stephen Morris e Phil Cunningham queriam continuar como New Order, mas a oposição de Peter Hook, e o mal-estar que tal iria criar junto dos fãs, levaram os restantes membros a criar um projecto paralelo, e a convidar outros artistas para os acompanhar. Nasce assim Bad Lieutenant.

Era 13 de Outubro de 2009 e o sol brilhou no lançamento de Never Cry Another Tear, álbum de estreia da nova banda. Segundo Sumner, o nome da banda surgiu durante uma visita a casa de Johnny Marr (guitarrista dos The Smith que colaborou com Sumner nos Electronic): “Entrei e ele estava a ver uma cena do filme Bad Lieutenant onde o Harvey Kietel estava a disparar contra um rádio”. “Eu disse, ‘Que merda é este filme?’ Era tão nojento e ao mesmo tempo excelente”, conta Sumner.

Never Cry Another Tear é um álbum mais emocional do que aquilo que os New Order nos habituaram ao longo de quase 30 anos de carreira. Bad Lieutenant assenta assim num nicho diferente, revela uma identidade própria e uma personalidade única, diferenciada de New Order e a anos-luz do obscurantismo de Joy Division. Bernard Sumner e Stephen Morris continuam lá, a voz é a mesma, a bateria é a mesma, a guitarra é a mesma, mas a música e a sonoridade pertencem a algo novo.

Para aqueles que esperavam mais do mesmo, Never Cry Another Tear veio provar o contrário. Mensagens positivas e acordes suaves caracterizam as 12 faixas de um disco que marca o nascimento de uma nova banda.

Sink or Swim, o primeiro, e até agora único single do novo álbum, justifica a sua escolha como ponto de partida para o universo de Bad Lieutenant. Embora peque pela falta do baixo de Peter Hook, a faixa número um não difere muito da sonoridade presente nas restantes músicas, destacando-se como um óptimo ponto de partida para aqueles ainda indecisos entre dar uma oportunidade a Never Cry Another Tear.

O álbum de estreia de Bad Lieutenant conta ainda com as participações de Jake Evans (voz e guitarra), Matt Evans (backup e bateria), Jack Mitchell (baterista dos Heaven), Tom Chapman (baixo), Carl Jackson (bateria) e o nome mais sonante a seguir aos ex-New Order, Alex James (baixista dos Blur).

Bad Lieutenant têm já marcados para Novembro, concertos em Nova Iorque que abrem as portas à tour de promoção de Never Cry Another Tear, nos EUA.

Bernard Sumner, Stephen Morris e Phil Cunningham iniciam assim um novo projecto com bases sólidas. Uma nova ordem para três maus tenentes.


Bad Lieutenant (Sítio Oficial): http://badlieutenant.net/


Bad Lieutenant (Twitter): http://twitter.com/badltmusic

Sunday, October 04, 2009

UFrame 2009



Menção Honrosa na Categoria de Documentário

"Revela-se com grande originalidade como um instrumento pedagógico, documental e jornalístico, que demonstra caminhos futuros para este Media."

Júri UFrame 2009

Tuesday, September 22, 2009

As Terras do Meu Verão

Foto: Pego do Inferno, Tavira; Autor: Adriano Cerqueira

  • Almeirim (Almoçar)
  • Aveiro (Viagem em Bicicleta, Compras & Utilidades)
  • Coimbra (Visita ao Convento de Santa Clara)
  • Fátima (Visita ao Santuário e à Basílica da Santíssima Trindade, Estrelinhas de Fátima)
  • Maceda (Viagem de Bicicleta)
  • Manta Rota (Férias)
  • Miramar (Relatório de Estágio)
  • Montegordo (Jantar, Festa da Nossa Senhora das Dores)
  • Oliveira de Azeméis (Visita ao Parque Molinológico do Ul)
  • Ourém (Almoçar, Visita ao Castelo)
  • Pego do Inferno (Visita ao lago e cascata do Pego do Inferno)
  • S. João da Madeira (Etapa da Volta a Portugal em Bicicleta)
  • Tavira (Visita à cidade, Pasteis do Algarve)
  • Tomar (Visita ao Convento de Cristo)
  • Torreira (Viagem de Bicicleta, Praia)
  • Vila de Eira (Almoçar)
  • Vila Real de Santo António (Visita à cidade)
  • Viseu (Etapa da Volta a Portugal em Bicicleta)
  • Vouzela (Lanchar)

Friday, September 18, 2009

Ciência de Dez Valores

Conhecidos os resultados de acesso ao ensino superior, a Universidade do Porto voltou a bater recordes ao conseguir uma taxa de colocação de 100% nas vagas para o ano lectivo 2009/10. Apesar destes dados, é de salientar que muitos dos cursos da Faculdade de Ciências, como Biologia, Geologia e Química, continuam a ter algumas das médias de entrada mais baixas, em alguns casos a rondar os 12 valores.

De há uns anos para cá, a tendência tem sido de uma contínua subida na procura por cursos de Ciência pura, contudo, há não muito tempo atrás não era raro alunos com média de secundário inferior a 10 conseguirem colocação simplesmente por os cursos referidos não terem preenchido as vagas. Estará esta tendência a demonstrar uma maior aposta dos portugueses na formação científica? Talvez, mas este assunto merece algumas reticências.

Os últimos anos de governo trouxeram um aumento na oferta de cursos profissionais de equivalência ao ensino secundário, contudo o antigo agrupamento Científico Natural, continua a ser o mais procurado pelos jovens que todos os anos ingressam no décimo ano de escolaridade. Como se explica então a falta de interesse por cursos de ciências? A questão parte de uma predisposição social.

A verdade é que a grande maioria dos alunos que optam pela vertente científica no secundário assim o fazem com vista a concorrerem a cursos da área da saúde. O tão afamado curso de Medicina é visto por muitos como a concretização máxima dos estudos de nível secundário, e o destino obrigatório para os melhores alunos. Um dogma português que todos os anos retira as melhores mentes académicas das áreas que mais precisam delas, como é o caso das Ciências puras.

A sobrevalorização da área da saúde no nosso país leva a que apenas aqueles com médias baixas, ou os poucos apaixonados que arriscam em seguir os seus sonhos, optem por cursos de Ciências. Este caso é paradigmático. Em países como os EUA, apenas os melhores alunos optam por seguir as Ciências teóricas, e as carreiras académicas da área da saúde acabam por ser atribuídas, em muitos casos, a alunos medianos que mais do que arranjar emprego, ou querer provar alguma coisa, procuram enveredar pelo nobre caminho de ajudar os outros.

A principal falácia dos defensores da aposta na saúde no ensino superior é a facilidade na obtenção de emprego. Ora todos os anos são formados cerca de mil médicos nas universidades portugueses, a estes juntam-se mais dois mil enfermeiros, num país com dez milhões de habitantes e com um défice de hospitais e centros de saúde, mais cedo ou mais tarde estaremos perante um mercado de saúde saturado sem capacidade para integrar as centenas de profissionais que todos os anos saem das nossas universidades.

Já nos cursos de ciências, tomando como exemplo a Geologia, todos os anos são formados entre 30 a 40 novos geólogos. Com um mercado que cada vez mais oferece emprego na área, não estará na altura de apostar nestes cursos?

Ingressar no ensino superior com o único propósito de arranjar emprego retira às universidades aquilo que elas defendem, isto é, a procura de conhecimento. Um curso superior não deve ser visto como um meio para atingir um fim, mas sim como uma plataforma de conhecimento que nos fornece as ferramentas necessárias para crescermos como pessoas e profissionais, e para entendermos melhor o mundo em que vivemos.

Ano após ano, vemos cientistas de países diferentes a receber o prémio Nobel da Química e da Física. Quando chegará a vez de Portugal? Volta e meia é digno de notícia um ou outro cientista nacional que recebeu um prémio de menor gabarito, muitas vezes por recurso à ajuda de universidades estrangeiras. Isto prova que temos qualidade, temos a base para criar os próximos vencedores de prémios Nobel, mas estamos a desperdiçá-los com falsas esperanças de trabalho fácil e de aprovação social.

É necessário investir na ciência nacional e motivar os jovens a escolherem outros caminhos. Os tempos de cursos de ciências com média de 10 valores que não chegam a preencher as vagas têm que acabar. Temos que tornar a Ciência numa área atractiva para as maiores mentes jovens que todos os anos vivem a dúvida entre seguir os seus sonhos ou optar pelo caminho mais socialmente aceitável. As peças estão na mesa. Cabe ao governo, e a cada um de nós, fazer o melhor para que o cenário do puzzle seja de um futuro de inovação e de reconhecimento científico a nível mundial.

Friday, August 07, 2009

Good Night, Sleep Tight, Young Lovers

Eureka Seven: Pocketful of Rainbows
Um novo mito nasce no universo de Eureka Seven. Eureka Seven: Pocketful of Rainbows é o primeiro filme baseado na série de mangas Psalms of Planets: Eureka Seven, que deu origem ao anime de cinquenta episódios com o mesmo nome. Da realização de Tomoki Kyoda, realizador da popular série Evangelion, Pocketful of Rainbows faz regressar Renton e Eureka, desta vez com uma nova mitologia e uma história alternativa ao argumento da série animada.

O cenário é de novo a Terra num futuro pós-apocalíptico, onde os humanos sobreviventes procuram eliminar de uma vez por todas os Image, espécie alienígena responsável pela remodelação da superfície do nosso planeta. A história tem início com a separação de Renton e Eureka, quando esta é raptada pelo exército quando apenas tinha oito anos. Renton, também ele uma criança, nada consegue fazer para o impedir. Anos mais tarde o nosso herói junta-se a um grupo rebelde para tentar salvar Eureka.

Os rebeldes liderados por Holland Novak e Talho Yuuki, fazem parte de um grupo de crianças sobreviventes de uma má experiência científica que os fez envelhecer mais depressa que o normal. Aqui o argumento segue a mitologia do conto infantil Peter Pan, com o grupo de rebeldes a lutar contra o exército para encontrarem um caminho para a Neverland.

A principal arma dos rebeldes é a sua nave, o Gekko-Go, que comporta dentro de si um conjunto de mechas, entra os quais Nirvash, pilotado por Renton, que aqui assume a forma de uma fada.

Aproveitando um súbito ataque dos Image, Renton consegue recuperar Eureka. Após os longos anos de separação, o jovem casal vê-se envolvido numa guerra tripartida onde ocupam a posição central como as crianças proféticas que vão guiar os rebeldes à Neverland. Renton e Eureka recusam-se a assumir o papel de Peter e Wendy e tentam procurar uma forma de viverem em paz e desfrutarem do amor que sentem um pelo outro.

Pocketful of Rainbows traz uma nova perspectiva sobre a relação entre Renton e Eureka e um novo olhar sobre os sonhos e vontades dos restantes personagens. Contudo, o filme peca por um excesso de flashbacks e por um argumento confuso que deixa de fora detalhes apenas acessíveis a fãs da série animada. Embora a nova abordagem sobre o casal protagonista possa aliciar os assíduos acompanhantes de Eureka Seven, a nova história e mitologia recaem sobre um realismo excessivo que força, por vezes, algumas personagens a agir de forma distinta da imagem que apresentaram na série original.

Embora esteja longe da perfeição cinematográfica, o filme vale pelo regresso das aventuras de Renton e Eureka. Eureka Seven: Pocketful of Rainbows, um filme que qualquer fã da série animada não pode deixar de ver.

Tuesday, August 04, 2009

Escreve o que não sentes

Sinto-me vazio. Vazio é a única palavra que se aproxima da total ausência de emoções que me vejo forçado a viver. Não me lembro da última vez que senti, nem sequer do sentimento, ou da situação que o criou.

Há vários anos que não consigo escrever. Valorizar a fantasia em detrimento da razão deixa-me dependente dos meus sonhos, das minhas emoções e da minha imaginação. Escrever por impulso sempre foi a minha filosofia, e tão belas baladas que daí saíram, mas hoje, sem sentimento, sem esperança e sem momentos, é impossível subjugar-me sob qualquer impulso, e assim permaneço sem vontade, numa perpétua estrada para um vácuo de esquecimento.

Mesmo agora que escrevo este texto, forço as palavras a saírem, paro a cada instante e pondero o que escrever a seguir. Nada é natural. Nada flui. Tudo continua num engarrafamento de ideias presas numa infinita hora de ponta.

É trágico viver num contínuo purgatório lírico, dominado por um triste e cinzento vazio de emoções. Não consigo fingir o que escrevo, pois embora consiga manter a falsidade escondida do resto do mundo, ver-me-ia forçado a sucumbir sob o peso da verdade que eternamente me iria perseguir. Fingir em ficção pode parecer paradoxal, mas o verdadeiro paradoxo esconde-se dentro da máscara de alguém que escreve o que não sente. Mesmo para mentir é preciso imaginar, e para imaginar é preciso sentir, caso contrário o virtualismo das ideias será exposto pela fraude que é, e nunca será capaz de convencer alguém da sua falsa realidade.

Não. Não posso escrever o que não sinto. Até voltar a sentir, se voltar a sentir, fecho a minha criatividade, que há muito não me pertence, e aguardo pelo seu regresso. Vejo-me forçado por um mundo que não me aceita, a deixar para amanhã a minha oportunidade de viver.

Fim.

Monday, July 27, 2009

O Próximo Passo

Para muitos, concluir o curso significa o fim da vida como estudante e o início de uma nova aventura no mercado de trabalho. Para mim, não.

A minha vida de estudante, de uma maneira ou de outra, continua agora no mestrado. Embora seja perfeitamente possível conciliar o mestrado com um emprego, e até mesmo aconselhável, a verdade é que eu não o quero fazer. Sempre que envio um currículo ou respondo a um anúncio, mais do que sentir ansiedade por uma possível rejeição, temo a possível resposta positiva que felizmente até agora ainda não recebi.

Porquê? A resposta é simples, porque não quero perder o controlo da minha vida. Não é que não me sinta pronto para enfrentar o mundo do trabalho, se assim fosse não teria passado o último ano a estagiar de graça, dedicando a totalidade do meu tempo livre para poder conciliar o trabalho com os estudos – pelo menos durante os primeiros nove meses, já que os restantes foram de estágio curricular –, mas sim porque ainda não sinto que seja a altura certa.

No outro dia respondi a um anúncio de uma empresa multimédia sediada em Lisboa. Apesar de o mestrado ser apenas dois dias por semana, não imagino como seria possível conciliar as duas coisas, vendo-me obrigado a deslocar-me semanalmente ao Porto, já para não dizer que não vejo com bons olhos uma mudança para a capital. Não que tenha alguma coisa contra a cidade, mas não sinto que seja a altura certa.

Felizmente, não me responderam. Decidi então procurar apenas ofertas de emprego próximas da minha área de residência, que é a mesma coisa que dizer: como os media de Ovar não estão disponíveis para me contratar, a melhor opção seria alguma empresa da Invicta. Volta e meia encontro um anúncio que corresponde a estas exigências, contudo não consigo deixar de me sentir algo relutante em responder.

Aceito que a independência financeira e a oportunidade de sair de casa são grandes aliciantes. Ter dinheiro para comprar um carro novo, poder finalmente fazer a minha transição de PC para Mac e comprar aquela Nikon D90 que tenho andado a namorar, são sonhos facilmente concretizáveis, à distância de um "sim" de uma qualquer empresa disposta a ter-me dentro dos seus quadros. Mas em termos de sonhos materialistas, confesso ter mais olhos que barriga. Pois aquilo que realmente quero é a verdadeira experiência universitária que até agora me foi negada.

O desemprego assusta-me, mais do que nunca sofro com a escassez do dinheiro que nos últimos três anos vi-me forçado a racionar para manter o mínimo nível de conforto e poder continuar a investir nos meus eventuais caprichos. Mas essa realidade só cairá em peso daqui a dois anos, se, concluído o mestrado, a situação se mantiver igual, pois aí não terei mais desculpas para ocupar o meu tempo. Há sempre a hipótese do doutoramento, mas não o quero fazer em comunicação, e se agora é complicado pagar um mestrado, ainda pior seria a transição para o terceiro ciclo.

Infelizmente, nem sempre temos aquilo que queremos. Talvez não esteja destinado a ter uma verdadeira experiência universitária, ou talvez a consiga conciliar com um emprego em part-time ou com uma possível colaboração. Apenas o tempo o dirá. Até lá, resta-me lidar com esta falta de vontade que, possivelmente, iria confundir muitos daqueles na minha posição, mas, também, nunca fui de me deixar ir com a corrente, ou de aceitar o curso natural das coisas.

"É tudo uma questão de vontade", e era tudo mais fácil se fosse capaz de a compreender.

Saturday, July 18, 2009

O Dia que Sucede ao Anterior e que Precede o Seguinte

UP
17 de Julho de 2009

O dia em que concluí a minha Licenciatura em Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia.

Um dia como qualquer outro. Um dia que podia ser relembrado como o dia em que, pela primeira vez, consegui correr sete quilómetros seguidos, ou como o dia em que fui ao festival Marés Vivas ver Scorpions, Guano Apes e Secondhand Serenade. Ou melhor, o dia em que escolhi não ir a esse festival. Mas não, o destino tinha reservado algo mais para este dia que, de outra forma, tão facilmente passaria despercebido no calendário.

Foram três longos anos que passaram depressa demais. Embora saiba que foram dados muitos e importantes passos em frente, não deixo de sentir que estou de regresso ao ponto de partida. Ao contrário das expectativas iniciais, o curso não me deu aquilo que eu mais queria, mas se calhar tal seria pedir demais a algo que não tinha como intenção satisfazer esse meu desejo. Contudo, o curso deu-me muitas coisas que até aqui tomei como garantidas, e ajudou-me a descobrir aquilo que realmente quero.

É triste chegar a este ponto e descobrir que muitas pessoas apenas se limitaram a confirmar as impressões iniciais que transmitiram no primeiro dia. Assim como é triste não ter tido tempo suficiente para conhecer melhor aqueles que tinham algo verdadeiramente novo a trazer para esta experiência.

Dia 11 de Agosto, vai fazer três anos desde o dia em que tomei a decisão final de ingressar no curso de Jornalismo e Ciências da Comunicação, abdicando, assim, do meu sonho de infância de ser Paleontólogo. Nunca me arrependi desta decisão, embora não seja raro encontrar-me a pensar sobre como seria se tivesse escolhido manter o rumo que planeava desde os oito anos de idade.

Nestes três anos, vi o meu curso mudar de nome, o número de cadeiras a aumentar e a forma de avaliação a ficar mais justa. Vi a extinção do quarto ano, as portas do Mestrado a abrirem-se com facilidade, e as do mercado de trabalho a fecharem-se a sete chaves.

Ao contrário de muitos, não sinto que seja a altura para deixar os estudos, mas sim para os continuar. Dentro de dois anos, esteja onde estiver, outra data não muito diferente deste 17 de Julho marcará o fim da minha etapa pelo segundo ciclo de ensino superior. A vida é feita de datas que ao início insignificantes, são para sempre relembradas na história que construímos.

Monday, May 18, 2009

100th: Love Tore Him Apart



Ian Curtis (15th July 1956 - 18th May 1980)

Good-bye Ian! You'll forever keep on walking in silence in the hearts of your fans.

Tuesday, May 05, 2009

Texto sobre a faculdade cujo título se perdeu algures pelo caminho

Ainda me sinto como se pudesse salvar o mundo, mas agora sei que mesmo que o fizesse nada mudaria.

É difícil lembrar-me do que sentia há três anos atrás, da maneira como vivia sob a esperança e as expectativas de um futuro melhor. Não me esqueço, contudo, das coisas que queria, das coisas que precisava, muito porque ainda não as tenho, mas também, porque sem elas a minha simples existência não faria sentido. Como nunca fez.

Continuo sem saber por que escolhi este curso, talvez a "mentira" que conto a mim próprio todos os dias, ou pelo menos sempre que alguém me faz essa pergunta, seja a verdadeira justificação, e todas estas constantes dúvidas sejam apenas a minha forma de tornar especial aquela manhã de Julho, num café de Aveiro, onde o meu futuro para os próximos três anos – e, possivelmente, para o resto da minha vida – foi traçado.

"Quero ser escritor, mas falta-me experiência de vida, e o Jornalismo é a área perfeita para a ganhar", com algumas variações consoante a pessoa e o momento, é esta a minha resposta. Sou um verdadeiro escritor, incapaz de juntar duas frases com sentido e sentimento, há mais de dois anos... A verdade é que já não sei o que sou, ou o que quero ser. Larguei a prosa e virei-me para a poesia, mas a minha lírica não é mais que versos soltos e palavras em bruto que surgem juntas numa pequena explosão momentânea de sentimento. Sinto como se tivesse perdido o meu "dom", e sem ele não sou nada se não banal.

Às vezes encontro-me a ler textos antigos que escrevi quando ainda era capaz de sentir, vejo-os como se outra pessoa os tivesse escrito por mim. Já não reconheço aquele rapaz que nunca satisfeito com o seu produto final, conseguia criar verdadeiras histórias épicas, autênticas sinfonias que melhor trabalhadas tinham o potencial para serem lembradas na própria História como autênticos clássicos contemporâneos.

Mas esse "dom" já não me pertence. Com o tempo perdi o olhar optimista que tinha sobre o Mundo. Os meus dias passaram de verdes colorações da realidade para constantes tardes cinzentas, vazias de esperança. Bom, não vazias, mas quase, pois é tão ínfimo o leve traço de sonhos e expectativas que me faz acordar todos os dias, que já não o consigo sentir.

Outra justificação, à qual sempre neguei qualquer influência, embora soubesse que estava a enganar-me a mim próprio, era a possibilidade de te encontrar, não no imediato, se assim fosse o Porto não teria sido a minha opção, por mais que na altura visse naquela cidade o meu "El Dorado", mas num futuro em que tivesses mudado o suficiente para te poder amar e para tu aceitares o meu amor, e o retribuíres com toda a entrega que uma relação épica, como aquela que imagino e desejo para mim, poderia dar.

Mas tudo isso não passava de uma ilusão. Pois tu não eras capaz desse feito, porque, na verdade, nunca soube, e ainda não sei, quem tu és. Apenas sei que não és assim. Embora hoje tal opção não faça qualquer sentido, não posso negar que na altura estes pensamentos não tenham tido qualquer tipo de influência na minha decisão. Pois a verdade é que tiveram.

Aprender a esquecer o passado foi uma lição que a faculdade não me ensinou. Talvez esquecer não seja a palavra certa, talvez devia ter dito "aprender a deixar o passado em paz". Independentemente dos motivos que levaram a esta decisão, três anos passaram, o caminho já foi percorrido e já é tarde para pensar no que me levou a o escolher. Três anos... Ditos desta forma quase parecem uma eternidade, mas passaram tão rápido que quase nem dei por isso.

Há não muito tempo atrás perguntei a uma pessoa se sentia que tinha vivido uma verdadeira experiência universitária. Ela respondeu que não – "faltou-me fumar o meu primeiro charro, apanhar a minha primeira bebedeira." A resposta surpreendeu-me, vindo de quem vinha, pois eu também penso da mesma forma, se bem que à sua resposta posso acrescentar: "faltou-me aprender a tocar guitarra; embora esteja a aprender Russo, estou longe de ser capaz de ler Dostoevsky na sua língua original; faltou-me ter uma vida boémia, saber mais sobre arte e literatura, ser capaz de citar autores e passar noites em lugares à margem da trivialidade dos lugares comuns, a ter discussões profundas sobre a própria existência; faltou-me pertencer a um grupo coeso no qual me sentisse pela primeira vez integrado, com o qual as saídas à noite estariam já implícitas e no qual encontraria sempre alguém disposto para me acompanhar a todos os eventos que faltei ou que não desfrutei na plenitude por não ter alguém para ir comigo, ou por levar alguém que fosse capaz de saborear a natureza do momento comigo; mas acima de tudo faltou-me amor. Uma primeira verdadeira paixão, uma primeira verdadeira relação. Faltou-me sentir pela primeira vez que alguém sente o mesmo que eu, que me compreende, que precisa de mim tanto como eu preciso dela e que quer estar comigo tanto como eu quero estar com ela. Tudo o resto é insignificante sem amor.

Mas não sou um falhado, não me sinto como um falhado e, por mais incrível que pareça, a cada dia que passa mais tenho a certeza que fiz a escolha certa. Não falhei na vontade de encontrar verdadeiras amizades, na vontade de encontrar alguém como eu, alguém com os mesmos interesses e com uma forma parecida de pensar. Não, nem em sonhos podia imaginar o número de pessoas assim que acabei por encontrar, quer dentro do curso, quer através dele.

Não falhei na busca por momentos que tão cedo não irei esquecer e cuja importância para sempre me ajudará a ultrapassar quaisquer dificuldades que possam surgir. Não falhei na experiência de vida, que embora em muitos aspectos ainda não me permita compreender ou saber o que fazer em certas situações, deixa-me com uma visão que mata a ingenuidade ganha após seis anos de viver à parte de todas as circunstâncias da típica vida de liceu.

Não, não falhei. Nunca estive num lugar melhor, mas também não aceito que apenas porque não tenho motivos para me queixar, isso sirva como desculpa para me deixar levar pelo destino e não pedir mais. Não. Eu quero mais e embora já seja tarde para o conseguir na faculdade, arranjarei forma de alcançar o meu lugar.

Falta pouco para dizer adeus àquelas velhas portas do edifício em segunda-mão perdido no interior da cidade Invicta, ao qual chamei casa nos últimos anos. Lá, não vivi a experiência universitária que esperava, mas acabou por ser uma etapa importante para o início da minha vida. Talvez salvar o mundo continue a não ser suficiente para alguém sentir por mim aquilo que eu estou disposto a sentir pelos outros, mas o dia chegará em que nada precisarei de fazer à parte de apenas ser eu próprio.

Sunday, April 19, 2009

No Comment


Imagem DR
It sucks always being the footnote in someone else's love story.